ECG

Na sala de espera de um serviço de cardiologia, espero a vez para fazer um ECG com prova de esforço (está tudo bem, foi um check-up e está tudo normal). Sou a única pessoa com menos de 60 anos, ou assim parece.

À minha frente um homem, aparentemente nos 70’s, relata a sua viagem a Cuba; apenas refere o quão mau tudo aquilo é, a degradação, a miséria e, acima de tudo, a falta de carácter dos cubanos. Mas que a culpa não é deles, são assim por causa do Fidel, que assim os fez e deixou, o grande sacana. 

“Com o Fidel morreram, sem se saber, 40.000 cubanos! 40.000 cubanos, mortos pelo Fidel, sem ninguém saber!” afirma…

Estou aborrecido e resolvo tomar parte deste pequeno drama e faço uma expressão interessada e surpreendida.

“40.000!!! tantos!!!” digo eu, espantado.

“40.000 sem que ninguém soubesse!” retorque o homem.

“Mas se ninguém soube, como é que o senhor agora sabe?” indago eu.

O espanto e a mudez tomam conta dele. Sou chamado para o meu exame e assim o deixo.

Não o voltei a ver…

2017-08-20

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Abram alas Para o Noddy!!! 

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Noddy: cogumelos, “duendes” e drogas sintéticas

O Noddy é um tipo sinistro. É um triste e péssimo exemplo para a juventude ainda muito tenra que o segue. A sério, tem um ar algures entre o catatónico e o psicopata assassino em série: Está sempre a sorrir com aquele olhar fixo e vazio, nunca pisca os olhos, parece sempre pronto a sacar de uma faca e fazer uma chacina.

Aquilo é da droga… eu aposto em MDMA – ecstasy para os menos entendidos – nos dias bons e uma mistura de LSD, PCP e ketamina nos dias maus. Ocasionalmente umas linhas de coca, quando lhe dá um acesso de hiperactividade. Depois, sob o efeito dos estupefacientes que consumiu, pega no carro e é vê-lo a dar gás pelas ruas da terra dele aos berros de “Abram alas para o Noddy”, a buzinar como se não houvesse amanhã.

O que faz a polícia do dito lugarejo? Nada! Acena e fica todo contente – está comprado o grande corrupto. De qualquer modo o único agente da autoridade é um bêbado e um cagão gordo.

A propósito, que raio faz o Noddy na vida, realmente?

Oficialmente é taxista. Mas anda de cá para lá o dia inteiro, a conduzir um descapotável “vintage” que faz “de taxi” (e que deve gastar gasolina como o caraças) sem que cobre um cêntimo que seja e ainda tem um avião próprio!!!

Bom, com o tipo de vida que leva e com os gastos que tem “das duas três”: ou é traficante ou prostituto de velhos pedófilos ou as duas coisas, que é o mais provável. E bate certo:

Em primeiro lugar é aquela relação esquisita com um duende idoso que volta e meia se lhe dirige nos seguintes termos: “Oh meu jovem Noddy”… suspeito, no mínimo.

Depois anda sempre “desafiado” por uns tipos com aspecto suspeito que o estão sempre a tentar tramar, também eles duendes ou gnomos ou uma outra qualquer etnia minoritária, tipo ciganos. E porquê? Obviamente por uma questão de território e rivalidade no negócio. Como os ditos cujos não têm ar de se prostituírem só pode ser negócio de droga. E perante a visível parcialidade do agente da autoridade é óbvio que o canalha está mais do que lista de pagamentos do nosso pequeno herói de pacotilha.

O Noddy tem também amigos suspeitos:

A Gata Rosa, por exemplo, que tem todo o ar de quem se dedica ao proxenetismo a coberto de um suposto negócio de gelados, explorando a Macaca Marta, a prostituta local – uma emigrante ilegal oriunda da África sub-sahariana.

Há também um urso idiota com demasiado tempo e dinheiro nas mãos – um idiota mitómano, com um atraso mental.

Um “zé-sempre-em-pé” mutilado, não se sabe se de guerra, se da talidomida, gordíssimo que fica para ali a abanar até que alguém o acuda.

Depois existem personagens muito “fashion” como o casal (absolutamente contra-natura) composto por um rato que precisa que “lhe dêem corda” e um elefante (fico agoniado só de pensar).

Há também o mecânico que trabalha sem recibos e que aposto que tem uma operação de desmantelamento de veículos e máquinas roubados.

Um vendedora que “vende de tudo, de papagaios a bolos”. Um belo exemplo de comércio ilegal de espécies protegidas – os papagaios – até ao de géneros alimentícios em condições higio-sanitárias precárias. A ASAE deveria ter uma palavra a dizer…

E ainda a família de imigrantes, os Xadrezinhos, que ninguém sabe bem quantos são mas andam de taxi para todo o lado… suspeito que o Noddy também trafica menores a coberto do negócio do “táxi”

O País dos brinquedos é pior que a Colômbia. Triste exemplo para as nossas crianças.

Tenho a certeza que o último psicopata assassino português, o cabo da guarda de Santa Comba Dão – terra que não interessa a ninguém e da qual nunca nada de bom veio ao mundo – para além de ser fã do ditoso filho da terra (e que esta lhe seja pesada para toda a eternidade) é fã do Noddy. O que se não explica tudo, explica muita coisa.

Retalhos da vida anónima XI

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Estes são mormons e são religiosos

“Ah, mas não faz ponte, hoje?” pergunta a dona do café.

“Eu não sou funcionária pública…” responde, lacónica, a cliente, “mas também, se fosse, não fazia! Não sou religiosa!”, conclui, enquanto recolhe o troco.

“Ai não é religiosa… A sério?” Pergunta a primeira, num misto de curiosidade e dúvida.

“É, não sou não. Sou testemunha de Jeová!”. E com esta afirmação sai porta fora, sorridente e serena, orgulhosa.

É muito cedo para estar aqui com considerações metafísicas. Acabo o café e uma parte de mim espera que o mundo acabe.

(algures em 2016)

Retalhos da vida anónima X

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4 canais e nada para ver…

“Ah! Não come quase nada!” afirma, espantada, a anfitriã.

“Ao almoço!” retorquiu o cliente, “ao jantar é que é: ainda ontem dei duas bofetadas a um frango inteiro!”, afirmou com entusiasmo adolescente.

“De manhã estou por aqui e não faço nada mas à tarde, como ando a trabalhar, trabalhar, à noite é que me dá fome de comer!!!”, informa, solene.

“Mas depois não vou logo para a cama!”, avisa, “estendo-me pelo menos duas horas no sofá a ver televisão!”

2017-02-07

Crónica incongruente

long road
We all walk The Long Road… cannot stay…

Cansado das lutas e das derrotas e das glórias fugazes, levantou-se e dirigiu-se ao arquivo onde urinou para um monte de caixas poeirentas, num psicodrama encenado, definindo o desprezo que sentia pela sua história de outros tempos.
Despiu o fato regulamentar, em conjunto com a gravata e os sapatos de executivo, ateou-lhes o fogo e saiu rindo às gargalhadas… maníacas, para quase todos, libertadoras, para os menos incautos. O incêndio foi breve e rapidamente controlado pela equipa de emergência eficiente que ele próprio ajudara a criar.
Deu as chaves do seu carro ao arrumador de serviço e mais a carteira com os documentos. Sentiu-se leve e feliz. Sentiu desconhecer o que sentia, esquecido do breve momento da sua infância em que não lhe foi dito para cumprir o destino não cumprido de seus pais.
Lentamente lembrou-se do dia da sua morte, o dia em que aceitou carregar o fardo de ser quem queriam que ele fosse. Era um dia solarengo de Outubro, soalheiro. O que para o caso é irrelevante.
Chegou a casa e escreveu uma carta onde contava da sua boa-nova, a sua ressurreição, à sua mulher-esposa socialmente adequada e escolhida. Não que não gostasse dela, de um certo modo até a amava. Certo dia de manhã, olhou para ela e viu-a morta enquanto tomava banho. Reconheceu depois, no cadáver sorridente e afável que lhe servia o pequeno-almoço, a sua própria morte.
Foi nesse dia em que se resolveu ressuscitar. E dar-lhe a oportunidade de o fazer também ela. Mas Resolveu que não continuaria morto se ela assim o decidisse permanecer. E assim foi, ela continuou morta e ele decidiu viver.
Deixou tudo para trás, apenas levou alguma roupa e começou a caminhar para onde lhe parecia certo. Nunca mais parou e ainda hoje continua a sua peregrinação pelo mundo fora. Está vivo, feliz. Ajuda outros mortos a voltar à vida.
Chamam-lhe o louco, o alienado, aquele que deitou tudo a perder. Fogem dele, a sua liberdade e paz de espírito causam-lhes incómodo.
Ele apenas sorri e continua o seu caminho.

Retalhos da vida anónima IX

“Hoje em dia, é o nosso sistema nervoso que comanda tudo! Mas é que é mesmo verdade!” diz ela entre a estupefação e a indignação contida.

“Eu sofro muito dos nervos, já o meu pai também sofria”, afirma a outra, olhar ausente, a remexer o café.

Calam-se e voltam as atenções para o Goucha e a Cristina, também eles porventura comandados pelo sistema nervoso.

2015-06-04