E agora algo não tão completamente diferente

 

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Retalhos da vida anónima XI

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Estes são mormons e são religiosos

“Ah, mas não faz ponte, hoje?” pergunta a dona do café.

“Eu não sou funcionária pública…” responde, lacónica, a cliente, “mas também, se fosse, não fazia! Não sou religiosa!”, conclui, enquanto recolhe o troco.

“Ai não é religiosa… A sério?” Pergunta a primeira, num misto de curiosidade e dúvida.

“É, não sou não. Sou testemunha de Jeová!”. E com esta afirmação sai porta fora, sorridente e serena, orgulhosa.

É muito cedo para estar aqui com considerações metafísicas. Acabo o café e uma parte de mim espera que o mundo acabe.

(algures em 2016)

Retalhos da vida anónima X

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4 canais e nada para ver…

“Ah! Não come quase nada!” afirma, espantada, a anfitriã.

“Ao almoço!” retorquiu o cliente, “ao jantar é que é: ainda ontem dei duas bofetadas a um frango inteiro!”, afirmou com entusiasmo adolescente.

“De manhã estou por aqui e não faço nada mas à tarde, como ando a trabalhar, trabalhar, à noite é que me dá fome de comer!!!”, informa, solene.

“Mas depois não vou logo para a cama!”, avisa, “estendo-me pelo menos duas horas no sofá a ver televisão!”

2017-02-07

Crónica incongruente

long road
We all walk The Long Road… cannot stay…

Cansado das lutas e das derrotas e das glórias fugazes, levantou-se e dirigiu-se ao arquivo onde urinou para um monte de caixas poeirentas, num psicodrama encenado, definindo o desprezo que sentia pela sua história de outros tempos.
Despiu o fato regulamentar, em conjunto com a gravata e os sapatos de executivo, ateou-lhes o fogo e saiu rindo às gargalhadas… maníacas, para quase todos, libertadoras, para os menos incautos. O incêndio foi breve e rapidamente controlado pela equipa de emergência eficiente que ele próprio ajudara a criar.
Deu as chaves do seu carro ao arrumador de serviço e mais a carteira com os documentos. Sentiu-se leve e feliz. Sentiu desconhecer o que sentia, esquecido do breve momento da sua infância em que não lhe foi dito para cumprir o destino não cumprido de seus pais.
Lentamente lembrou-se do dia da sua morte, o dia em que aceitou carregar o fardo de ser quem queriam que ele fosse. Era um dia solarengo de Outubro, soalheiro. O que para o caso é irrelevante.
Chegou a casa e escreveu uma carta onde contava da sua boa-nova, a sua ressurreição, à sua mulher-esposa socialmente adequada e escolhida. Não que não gostasse dela, de um certo modo até a amava. Certo dia de manhã, olhou para ela e viu-a morta enquanto tomava banho. Reconheceu depois, no cadáver sorridente e afável que lhe servia o pequeno-almoço, a sua própria morte.
Foi nesse dia em que se resolveu ressuscitar. E dar-lhe a oportunidade de o fazer também ela. Mas Resolveu que não continuaria morto se ela assim o decidisse permanecer. E assim foi, ela continuou morta e ele decidiu viver.
Deixou tudo para trás, apenas levou alguma roupa e começou a caminhar para onde lhe parecia certo. Nunca mais parou e ainda hoje continua a sua peregrinação pelo mundo fora. Está vivo, feliz. Ajuda outros mortos a voltar à vida.
Chamam-lhe o louco, o alienado, aquele que deitou tudo a perder. Fogem dele, a sua liberdade e paz de espírito causam-lhes incómodo.
Ele apenas sorri e continua o seu caminho.

Retalhos da vida anónima IX

“Hoje em dia, é o nosso sistema nervoso que comanda tudo! Mas é que é mesmo verdade!” diz ela entre a estupefação e a indignação contida.

“Eu sofro muito dos nervos, já o meu pai também sofria”, afirma a outra, olhar ausente, a remexer o café.

Calam-se e voltam as atenções para o Goucha e a Cristina, também eles porventura comandados pelo sistema nervoso.

2015-06-04

Memórias de uma juventude inquieta II

Os Echo & The Bunnymen (como os Smiths, os JMC, os Cure e tantos outros) eram uma das bandas que ditava o estilo de roupa e corte de cabelo daqueles que se diziam “vanguardas”, que eram na verdade os shoegazers, por oposição às outra tribos como os punks, os góticos (muito diferentes dos de agora), os rockabillies, os metaleiros, os skin-heads – e todos estes em oposição aos queques e betos.

Predominância do preto e cinzento escuro, com algum branco ou, se fosses mesmo cool, a mmesma cor na camisa e na meias – que se mostravam com orgulho, arregaçando as calças em dobras cuidadas. O blazer era obrigatório, com camisolas de gola alta no Inverno, assim como os casacos de ganga. Quem podia, blusão de couro. E claro, óculos escuros, mesmo à noite! E as camisas com estampados assimétricos e que ficavam bem no Meia-Cave e no Aniki-BóBó.

E o sapatos e as botas! Pretos – ou mesmo pretos e brancos – de estilos antigos, recuperados e caricaturados, de solas finas ou próprias para atravessar as cheias mas nunca, nunca sapatos de vela ou mocassins ou sapatos “de enfiar”. E havia, claro, as “doc’s” – um favorito de várias tribos. Mas para a maioria de nós inacessíveis, tinham de vir de Inglaterra e eram caríssimas.

Mas num de repente veio o “Acid House” e veio “Madchester” e veio a televisão por satélite e as camisas às cornucópias e as cores e as calças de ganga clarinhas e tudo o resto. Tudo mudou de repente, o país abriu-se ao mundo e foi-se tudo mudando numa voragem irresistível e nós com eles, à força (será que crescemos mesmo?), as tribos esbateram-se e misturaram-se e nunca nada foi mais o mesmo. E na verdade, neste aspeto, estamos melhor…

Do jogo da bola

1.º Não gosto de futebol; enquanto desporto em si é apenas mais um, que acontece ser imensamente popular e que acontece eu não gostar.

2.º Mas ainda menos gosto dos a quem eu chamo “os futeboleiros”. São a horda que compra todos os dias pelo menos um dos jornais diários sobre futebol (e não, não são desportivos) e que é, salvo poucas excepções, absolutamente incomodativa: discutem os “acontecimentos” aos berros nos mais diversos locais públicos como se o que dissessem fosse a única coisa que importa na vida das pessoas.

São a maioria das vezes broncos que se tornam mais ou menos perigosos, de acordo com o nível de educação social e álcool/drogas ingeridos, e são o protótipo da intolerância, pois apenas admitem a militância pelo seu clube. Não é por acaso que as organizações neo-nazis escolhem este meio para recrutarem a sua base de apoio.

E isto leva-me às claques, monturo parido por este mundo fétido, bandos e escola de criminosos e sociopatas, como se tem verificado nos últimos anos.

3.º Os futebolistas são demasiado bem pagos para a utilidade social que têm (eu bem sei que é o mercado a funcionar). Estão ao mesmo nível dos saltimbancos (já não os há), actores, comediantes e palhaços. Porventura consomem um pouco mais do a esmagadora maioria dos contibuintes, mas ainda assim o seu peso na economia não é significativo.

Há algumas excepções, de pessoas que se tornaram úteis à sociedade, mas são muito poucas.

Pergunto-me como farão os clubes para arranjarem tanto dinheiro… pessoalmente acho que mesmo os clubes ditos “milionários” e que de facto têm uma operação comercial lucrativa bem montada e à escala mundial lavam dinheiro demasiado sujo – tráfico de armas, droga, pessoas, diamantes e por aí afora.

4.º Interrogo-me porque carga de água há-de alguém ficar assim tão “escamado” com a minha indisposição com o jogo da bola, a ponto de lhe chamar “ódio” (palavra muito forte).

5.º O CR7 não me aquece nem arrefece, se é de facto o melhor ainda bem, que ele é mesmo esforçado e persistente – admito que pegar por este lado da questão seria mais útil às gerações mais novas, sempre impressionáveis.

Quero dizer que deveria ser aproveitado este facto de o fulano ter ganho os prémio que ganhou e mostrar que só com muito esforço, dedicação e persistência se pode aceder aos lugares cimeiros da sua “arte” e que mesmo assim o sucesso estratosférico não é garantido, a sorte/acaso ainda vai desempenhando o seu papel.

6.º Para rematar: o futebol em Portugal é como uma Religião e como tal é quase sempre muito complicado falar dele sem que apareçam a berrar por aí os seus fundamentalistas das mais diversas facções… não há discussão possível a nenhum nível salvo e só se for apenas pela concordância com essas bestas quadradas (que é o que um fundamentalista é).

Estes boçais reagem do mesmo modo às pessoas a quem o futebol diz menos que cascas de amendoim (que se podem aproveitar como biomassa – são uma boa fonte de combustível) como os Crentes reagem perante os Ateus ou Agnósticos; o facto de haver alguém que não acredita ou que no mínimo questiona racionalmente a sua Verdade incomoda-os mais do que aqueles que professam outra Verdade (mágica) diferente… é que estes podem (eventualmente) serem “convertidos” à Verdade mais verdadeira, ao passo que aqueles pura e simplesmente não se deixam enganar ou convencer.

A todos os futeboleiros: vão bardamerda.